Federação internacional impõe limites a tênis tecnológico e proíbe modelo usado por Kipchoge

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A World Athletics, a federação internacional de atletismo, divulgou na última sexta-feira novas normas para o uso de calçados nas competições esportivas. A principal mudança está na regulamentação do limite de 4 centímetros para a altura da sola e a utilização de apenas uma placa de carbono dentro do tênis, porém sem cobrir toda a extensão da sola.

Diferente do que chegou a publicar a imprensa britânica, a federação internacional não impôs uma restrição total à linha Vaporfly, da Nike, que vem revolucionando as corridas de longa distância. Estão autorizados os modelos 4% e Next%, usado por Brigid Kosgei para quebrar o antigo recorde mundial feminino da maratona. Mas o protótipo Alphafly, tênis com o qual o queniano Eliud Kipchoge correu uma maratona pela primeira vez abaixo de 2 horas, está banido.

Outra obrigatoriedade é que o modelo necessita estar à disposição em lojas esportivas para qualquer comprador, em lojas físicas ou online, por no mínimo quatro meses antes do seu uso em competições. Isso acaba com a possibilidade de atletas de ponta, patrocinado pelas grandes marcas (em especial a Nike), correrem maratonas com tênis exclusivos ou com protótipos. As únicas exceções são tênis adaptados por razões médicas ou estéticas.

O impacto maior será nas provas de longa distância, em que esses equipamentos fazem diferença. Nas disputas de velocidade, como os 100m rasos, os competidores continuarão usando as sapatilhas tradicionais.

O resultado dessa regulamentação acabou sendo uma vitória da Nike, que poderá ter seus modelos que são vendidos em lojas presentes nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Há alguns anos a federação internacional vem sendo questionada sobre alguns modelos lançados pela Nike. Críticos consideram como um “doping tecnológico”. O tênis Nike Zoom Vaporfly 4%, apresentado em 2017, conseguiu trazer avanços que ajudaram a melhorar os tempos da maratona. E um dos trunfos dele é justamente a placa de fibra de carbono que está no interior do tênis.

“Acompanhei a evolução desse calçado, que foi de uma para três placas de fibra de carbono. É parecida com aquelas lâminas de atleta paralímpico amputado das duas pernas. Se reparar nas provas, ele larga e fica muito para trás, mas a lâmina armazena energia. A partir de um determinado tempo da prova, ele ganha uma velocidade absurda. Na maratona, e nas provas mais longas, a energia acumulada impulsiona o passo”, explica Ricardo D’Angelo, gestor do Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima.

A promessa da empresa era de que o Vaporfly melhoraria o desempenho em 4%, ou seja, em um tempo de 2h10min para a maratona, algo muito bom, o atleta seria até cinco minutos mais rápido. Desde então, as cinco marcas mais rápidas da prova no masculino vieram em sequência, todos com atletas usando este calçado.

Entre as mulheres, duas das cinco marcas mais rápidas foram com o calçado, incluindo o novo recorde mundial da queniana Brigid Kosgei, que fez 2h14min04s, tempo 81 segundos mais rápido que a marca anterior.

A atleta africana estava usando o Next%, uma evolução do 4% e que, entre outras coisas, tem 15% a mais de espuma que a versão anterior e segundo a fabricante é capaz de fornecer até 85% de retorno de energia. O modelo foi lançado em junho do ano passado e tem um custo de cerca de R$ 1.400 no Brasil. O tênis é vendido nas lojas virtuais da Nike, que costuma colocar pequenos lotes à venda e eles esgotam em poucos segundos devido à alta procura – muitos corredores amadores querem utilizar o Next% para melhorar seus tempos nas ruas.

Em 2009, a Fina (Federação Internacional de Natação) votou por banir da modalidade os maiôs tecnológicos. Na época, a Speedo tinha um traje de corpo inteiro, usado inclusive no masculino, e mais de 100 recordes mundiais foram quebrados. Depois disso, os homens voltaram a usar apenas calção e muitas marcas daquela época persistem até hoje.

“A federação optou pela integridade no atletismo. É como a Fórmula 1 e como ocorreu na natação. Acredito que vai ser até benéfico. Não está proibindo a tecnologia, as outras empresas que quiserem acompanhar vão ser dentro dessas regrinhas. A Nike trabalhou numa tecnologia, o tênis realmente é um sucesso, as modificações produzem melhora no desempenho e os resultados mostram isso. Agora vem a tentativa de dar um padrão”, comenta D’Angelo.

O maior garoto-propaganda desse tênis tecnológico é o queniano Eliud Kipchoge, que em outubro do ano passado correu uma maratona em Viena com tempo recorde – não homologado por ter sido realizado em condições não aceitas pela IAAF. Ele terminou a prova abaixo de 2 horas, algo impensável anos atrás. Tudo graças principalmente ao protótipo da Nike que utilizou, o AlphaFly.

Ele tem uma sola mais alta que os 4 centímetros permitidos e conta ainda com duas bolsas de ar no interior. Nos padrões atuais, ele não pode ser usado em competições oficiais e não estará nos Jogos de Tóquio.

Inicialmente, a tecnologia nesses calçados era voltada para atletas das provas de fundo em corrida de rua, como maratona, meia maratona, 10 mil metros e 5 mil metros. Mas com o sucesso do modelo, a Nike começou a produzir sapatilhas de pregos no mesmo conceito, que atualmente são usados por competidores de 800m e 1.500m. A World Athletics também fez especificações para as sapatilhas.

Ao autorizar a linha mercadológica da Vaporfly, porém, a IAAF cria um problema com outras marcas. Atletas patrocinados por empresas concorrentes têm a obrigação contratual de correr com modelos dessas marcas. Mas não ter um desses modelos no pé dá a eles clara desvantagem competitiva.

No ano passado, dos 36 corredores que ficaram entre os três primeiros colocados das principais maratonas do mundo, 31 estavam de Vaporfly.

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